Uma pesquisa da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga, identificou substâncias tóxicas produzidas por fungos em fórmulas infantis, leites em pó e outros alimentos à base de leite destinados a crianças. Das 190 amostras analisadas, 98 apresentaram pelo menos uma micotoxina, o equivalente a 51,6% do total.
O estudo foi realizado entre maio de 2023 e maio de 2025, com produtos comercializados em supermercados e farmácias de Pirassununga e Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Todos os alimentos analisados eram fabricados no Brasil.
Apesar da presença das substâncias, a maior parte das concentrações ficou abaixo dos limites máximos de tolerância. No entanto, três amostras ultrapassaram os limites estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), enquanto 11 ficaram acima dos valores adotados pela legislação europeia.
Quais toxinas foram encontradas?
As micotoxinas são substâncias produzidas por determinados fungos que podem contaminar alimentos durante o cultivo, a colheita, o armazenamento ou o processamento. Como não alteram necessariamente a aparência, o cheiro ou o sabor dos produtos, sua identificação depende de análises laboratoriais.
Entre as substâncias investigadas, a zearalenona foi a mais frequente, encontrada em 60 amostras, correspondentes a 32% do total. As fumonisinas apareceram em 42 amostras, enquanto a ocratoxina A foi identificada em 11.
Também foram detectados deoxinivalenol, toxina T-2 e aflatoxinas.
Segundo os pesquisadores, algumas dessas substâncias estão associadas a efeitos tóxicos, danos ao sistema imunológico e outros problemas de saúde. As aflatoxinas e a ocratoxina A, em particular, exigem atenção por seus efeitos potencialmente graves.
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Bebês exigem atenção especial
De acordo com a pesquisadora Sana Ullah, responsável pelo estudo de doutorado, bebês e crianças pequenas podem ser mais vulneráveis à exposição às micotoxinas devido ao menor peso corporal e à capacidade ainda em desenvolvimento de processar e eliminar determinadas substâncias.
O risco, porém, depende de fatores como a concentração da toxina, a quantidade de alimento consumida e o tempo de exposição. Portanto, a presença de micotoxinas em uma amostra não significa, por si só, que o produto represente risco à saúde.
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é a identificação da toxina T-2, encontrada em poucas amostras. Segundo o estudo, essa substância não possui limite máximo específico estabelecido na regulamentação brasileira considerada pelos autores, embora tenha limites definidos na Europa.
Pesquisadores defendem mais fiscalização
Os pesquisadores ressaltam que as micotoxinas podem entrar na cadeia produtiva desde a agricultura. Ingredientes vegetais utilizados na fabricação dos alimentos, por exemplo, podem ser contaminados por fungos antes de chegar à indústria.
Além disso, o processamento industrial e o aquecimento nem sempre eliminam as toxinas, mesmo quando os fungos responsáveis por produzi-las são destruídos.
Por isso, o estudo destaca a importância de medidas preventivas no cultivo, na colheita, no armazenamento e na fabricação dos alimentos, além do monitoramento das matérias-primas e da fiscalização sanitária.
Os autores também apontam a necessidade de novas pesquisas, com amostras de outras regiões do Brasil, para ampliar o conhecimento sobre a ocorrência dessas substâncias e avaliar melhor os possíveis riscos à saúde infantil.
O artigo científico Occurrence and Risk Characterization of Mycotoxins in Milk-Based Infant Foods Commercially Traded in São Paulo, Brazil foi publicado na revista Dairy.
Reportagem: Jornalista Toni Oliveira
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