Surto de coronavírus pode ter se originado de morcegos Foto: Coordenadoria de Defesa Agropecuária/Estadão Conteúdo
Sequência completa do 2019-nCoV isolado no Instituto Pasteur de um dos primeiros casos franceses Instituto Pasteur / CNR dos vírus das infecções respiratórias

Produzidas e publicadas em menos de um mês, as análises genéticas do novo coronavírus, o 2019-nCoV, indicaram que ele é de fato uma variedade diferente das conhecidas e deve ter chegado aos seres humanos por meio de morcegos, de acordo com três artigos científicos publicados em janeiro. O vírus identificado em dezembro de 2019 na China causou 563 mortes e infectou mais de 28 mil pessoas em 25 países até o dia 5 de fevereiro.

Os estudos sobre o vírus de pessoas infectadas na China indicaram que o 2019-nCoV é uma nova variedade do gênero Betacoronavirus, distinta dos coronavírus causadores da síndrome respiratória aguda grave (Sars). O novo tipo apresentou 88% de semelhança genética com dois coronavírus derivados de morcegos coletados na China, reforçando a hipótese de que esses mamíferos seriam a fonte do microrganismo que infectou seres humanos ao ter contato com as fezes dos animais.


Sequência completa do 2019-nCoV isolado no Instituto Pasteur de um dos primeiros casos franceses Instituto Pasteur / CNR dos vírus das infecções respiratórias
Os trabalhos descartaram a possibilidade de o vírus ter vindo de serpentes, como se cogitou.
“As análises estruturais e moleculares dos genomas são importantes para reconstruir a historia evolutiva, as formas de transmissão, a capacidade de causar doenças e a dispersão do novo coronavírus”, diz a virologista italiana Marta Giovanetti, pesquisadora do laboratório de flavivírus da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Rio de Janeiro.

Segundo ela, outra descoberta importante foi a taxa de mutação do novo coronavírus, de 10-3 substituições por sítio (nucleotídeo, trecho do DNA) por ano. “É uma taxa alta, em concordância com a dos vírus de RNA, o que ressalta a capacidade desses patógenos de acumular rapidamente mutações ao longo do genoma”, diz ela.

Com pesquisadores da Universidade Campus Biomédico, de Roma, Giovanetti participou da análise dos primeiros 12 genomas completos do novo vírus sequenciados por grupos de pesquisa internacionais e disponíveis nas bases Genbank e Iniciativa Global de Compartilhamento de Dados sobre Influenza (GISAID). Os resultados foram publicados em 29 de janeiro na Journal of Medical Virology.

Pesquisadores da Universidade de Atenas, na Grécia, e do Centro de Prevenção e Controle de Doenças da China publicaram respectivamente em 28 de janeiro, na Infection, Genetics and Evolution, e em 30 de janeiro, na Lancet, outros trabalhos sobre a identidade genética do novo vírus.


Infectividade
De acordo com estudo de pesquisadores da Universidade de Hong Kong, publicado em 30 de janeiro na revista International Journal of Infectious Diseases, a taxa de infectividade do novo coronavírus – a capacidade de ser transmitido de uma pessoa infectada para outra – pode variar de 2,2 a 3,5.

Pacientes
Também na Lancet de 30 de janeiro, uma equipe do Hospital Jinyintan, na China, descreveu a evolução da virose causada pelo 2019-nCoV. Dos 99 pacientes (67 homens e 32 mulheres com idade média de 55 anos) hospitalizados entre 1º e 20 de janeiro, quase metade (49%) tinha visitado o mercado de frutos do mar de Huanan, apontado como foco do surto – o local vende não só peixes, aves e carnes de origem variada como também répteis e animais selvagens. A maioria teve febre (83%), tosse (82%) e pneumonia bilateral (75%). Onze deles pioraram em um curto período de tempo e morreram por falência de múltiplos órgãos.

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Este texto foi originalmente publicado por Pesquisa FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.